"Viver de Arte"

Eu tive um sonho…

By 27 de Agosto de 2021 No Comments

Eu tive um sonho…éramos todos passageiros de um tempo muito louco, em que as pessoas tinham perdido parte dos seus rostos (ficaram apenas os olhos para demonstrar alegria, tristeza, medo, surpresa), porque tinha acontecido uma pandemia mundial que parou o planeta e apagou as caras das pessoas, apagou muitas pessoas inteiras também.

As pessoas ficaram isoladas em suas casas lidando com seus fantasmas…que para os que tinham mais sorte, era só o tédio, para os menos afortunados, era a fome.

Pessoas isoladas tendem a criar coisas, para o bem e para o mal…

Podem criar orquestras inteiras das sacadas dos edifícios, com gente que nunca viram antes.

E podem criar paranoias.

As primeiras aconteceram mais no início, e vieram acompanhadas de cartazes com frases positivas e desenhos coloridos.

As segundas começaram a acontecer logo depois que as pessoas descobriram que fazer pão não evitaria a quebra emocional.

Rolou a paranoia da produtividade.

Rolou a paranoia da solidão.

Rolou a paranoia de levantar o tapete (e ver tudo que tinha escondido ali embaixo).

Teve paranoia rolando o sonho todo…

Teve festa infantil sem convidados, teve  encontro de família por videochamada, teve gente se abraçando por barreiras de plástico.

E como eu sou bastante imaginativa (meus sonhos são sempre sucessos do surrealismo), além da pandemia tinha crise humanitária, crise política, crise ética…foi uma suruba de crises!

Tudo junto e misturado.

E a gente tava ali, tentando se manter na sanidade…cada vez mais escassa.

Mas o pior eram os apagados…eram muitos, todos os dias.

A pessoa num minuto tava ali, com sua família, seus amores, no minuto seguinte era apagada, sozinha e pra sempre.

Ah, e tinha campeonato de dores…que dor vale mais? a minha ou a sua? E a métrica era a quantidade de likes nas publicações sociais (pensa que loucura, ainda bem que era sonho).

O que ajudou muito foi a indústria da moda dizer que aprovava o novo outfit, que agora era cool passar o dia de pijama ou moletom…nossa, que alívio, que tragédia seria ser considerado cringe.

Mas ajuda mesmo, real, nós recebemos das artes…essa sim! Os mais sortudos tinham plataformas digitais pra ouvir milhões de músicas e podcasts, livros novos para ler, uma variedade de filmes disponíveis no streaming, visitas virtuais a museus pelo mundo…a arte salvou muita gente da loucura.

E estranhamente – ao mesmo tempo essas mesmas artes – sofriam ataques e derrotas históricas no meu país.

Aliás, no meu sonho meu país sofreu tanto…eu assistia de longe o que acontecia lá, e que tristeza eu provava, que vontade de acordar.

Mas o sonho continuava, e apareciam outros países com outras desgraças, com pessoas fugindo, em barcos e aviões.

Eu devia chamar de pesadelo, não de sonho…mas não chamo porque naquele liquidificador humano, aconteciam coisas tão boas que contrastavam com toda aquela tragédia.

Porque tinha descaso, mas tinha também uma onda de solidariedade e empatia.

Porque tinha ruptura, mas tinha também reencontro e redescoberta.

Porque tinha medo, mas tinha também tempo pra brincar no chão com as crianças, como nunca antes.

Nunca, nada, é linear.

 

Acordei pela manhã, mas ando com medo de dormir de novo e o sonho continuar…Deus me livre!

Leave a Reply